As glamourosas lágrimas de wheyprotein e o inesperado sofrimento dos padrõezinhos

Jordan Dafné

Na semana passada uma forte discussão sobre os padrões de beleza  do mundo gay correu na internet depois que dois youtubers, relativamente conhecidos, decidiram que o termo “padrãozinho” era problemático e ofensivo. O ruivo do canal Lubba TV soltou um textão no twitter que falava sobre como essa nomenclatura limitava as identidades das pessoas, enquanto o ex do Frederico Devito, Luan Poffo, resolveu usar o face para falar que seus atributos físicos em nada interferiam na sua militância  e que ele lutava por todas as tribos LGBT.

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A tentativa dos youtubers de criarem uma falsa simetria em relação a grupos que são, de fato, esteticamente oprimidos, como negros e gordos, foi recebida com aplausos de uns, e revolta de outros.

Foto: Reprodução | Tumblr

Caso alguém não saiba a palavra padrãozinho é usada para designar aqueles homens que se encaixam perfeitamente nas regras estéticas e comportamentais que a sociedade impõe. A pele, obviamente, é branca, o corpo com músculos exaltados e definidos, resultado de muito suplemento, frango, batata doce e uma rotina de malhação degradante na AlphaFitness.

Não para por ai, tem que ter também uma barbinha rala e podada para dar um certo contraste, ter boas condições financeiras e nada de sair por ai fazendo carão com um andar rebolativo, tem que se comportar feito macho. Pode ser gay sim, só não pode ser feminino. Os olhos claros são opcionais. 

Essa estética física e comportamental é oriunda de uma imposição eurocêntrica que nos rege até os dias de hoje através da dramaturgia, do cinema, da publicidade e da mídia de forma geral. Isso nos impede de enxergar em outras características, a beleza, o tesão, o desejo ou a admiração, porque estamos condicionados a pensar no belo nesse formato quadrado, nesse jeito padrão. 

Na Grécia, o kalón (belo) representava tudo aquilo que era agradável aos olhos, mas não existia uma definição exata do belo. A beleza poderia ser encontrada em diferentes coisas, como na justiça, para o Óraculo de Delfos, ou na sabedoria, para Platão. Com o crescimento das polis e intensificação da pintura e da arquitetura, as artes passaram a representar a beleza ideal, um corpo bonito era aquele que apresentava proporções harmoniosas e bem definidas, tal qual as estátuas e quadros da época. 

A beleza era também um atributo puramente masculino, do homem rico, grego e másculo. Os corpos esculturais se apresentavam desinibidos nos ginásios onde os atletas treinavam para modelar seus corpos e se prepará-los para os jogos olímpicos. Os soldados treinavam para as batalhas que estavam por vim. Os conhecimentos intelectuais como  filosofia, poesia, matemática e gramática, eram o complemento interno daquelas cascas perfeitas as quais tentamos projetar em nós mesmos até hoje. 

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Na Grécia, existia uma cálculo especifico para determinar as proporções perfeitas do belo. O rosto deveria ter 1/10 do comprimento total, a cabeça, 1/8, o comprimento do tórax 1/4.

Foto: Reprodução | Tumblr

Esse histórico da beleza nos faz perceber que ela sempre esteve aprisionada em relações de poder e relacionadas a um grupo com privilégio social. É controverso algumas pessoas se ofenderem por serem chamadas de padrãozinho sendo que, quem recebe esse título vive gozando de uma realidade que só quem está no padrão pode ter, a facilidade nos relacionamentos amorosos, as oportunidades no mercado de trabalho, e a aceitação social. Não adianta tentar transformar o padrão na vitima, porque a história e os próprios fatos sociais negam isso. 

Não se trata de separar a comunidade gay em extratos, mas sim de reconhecer que entre os gays existem recortes que mudam totalmente a vida das pessoas, porque ninguém é só sexualidade, as pessoas possuem também etnias, gêneros, performances, classes sociais, que são rótulos, mas são também características que definem grande parte do seus destinos. Não se trata de achar que você, gay padrão, individualmente, oprime outras estéticas, mas sim do que a sua estética representa socialmente e historicamente, e do seu reconhecimento de privilégios diante outros corpos e formas de ser. 

Não se trata de achar que todo gay tem que ser magrelo e afeminado, mas de entender que a sua vida é totalmente diferente da dele e que você jamais pode falar por ele, então pense duas vezes antes de sair dizendo por ai que luta por todas as tribos LGBT, sendo que você pertence a uma que não precisa lutar quase nada. Se alguém se ofende ao ser chamado de padrãozinho, é porque ela reconhece o quanto a forma de ser dela é uma mera imposição e o quanto isso é excludente e violento com quem jamais conseguirá alcançar os limites ditados, ou de quem simplesmente não quer estar nesses limites. 

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As lamúrias de quem vive uma vida dotada  de privilégios são quase sempre lamúrias oriundas de um medo de perder esse privilégio, ainda que ele resulte na opressão de outros grupos específicos.

Foto: Reprodução | Tumblr

A famosa justificativa do “fala mal do padrãozinho, mas jamais recusaria um” não é um contraponto, apenas reforça que nossos desejos estão sendo manipulados pelas referências midiáticas, até porque, se não fosse assim, o que explicaria todo mundo está correndo atrás do mesmo tipo de homem? Como construímos esse desejo coletivo por homens brancos e malhados se não por meio do convívio social? 

O pseudo sofrimento dos padrõezinhos é ilegitimo e vergonhoso demais para nos comover, vitima mesmo é quem não tem qualquer chance de mostrar o que tem guardado dentro porque o que está fora não chama atenção. Falar “padrãozinho” é uma simples forma de fazer com que as pessoas percebam que elas estão fissuradas por algo fabricado e que existe muito além daquilo e daqueles. É um deboche gostoso que alfineta e faz os peitorais malhados murcharem ao perceberem que seus castelos de wheyprotein estão sendo desmanchados pouco a pouco por uma simples expressão.

Fonte de informações: http://www.ensinarhistoriajoelza.com.br/a-beleza-na-grecia-antiga-e-hoje/

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