Cute but psycho: a ansiedade é teatral

Camilla Sales

Vinte e Um é o nome dele, ou o número, e louco é uma das suas infinitas possibilidades de mostrar-se. Não é para menos – depois de já ter completado mais de duas décadas de existência – que o Século XXI é esse nó desatado. Pois bem, o entendo.

Bom, mas a pauta de hoje vai além de número assertivos, temporais ou vicissitudes da vida. Afinal, a ansiedade nos transpassa e sempre rola a estética do cute but psycho. E é dessa relação causa-efeito que eu vim bater umas teclas e trazer a performance que elas mesmas já carregam consigo. Você vai entender o porquê.

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Reprodução

#pracegover Pessoa jogada em uma banheira de líquido cor branco com mãos sobre o rosto.

A ansiedade é o mal do século, como muitos(as) já disseram por aí… A realidade anda tão contorcida e fast, que viver tornou-se algo mais próximo do neurótico do que daquilo que entendemos como ‘normal’. Por dia, somos máquinas de super extração: engolimos incontáveis informações, lidamos com problemas evitáveis e vivemos tantas realidades simultaneamente que a ansiedade vem de maneira osmótica e desprendida. 

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Reprodução

#pracegover Menina com blusa branca em fundo branco com saco plástico sobre a face, tampando-a.

O sentimento genuíno da ansiedade se reflete sem muita timidez nos nossos dias. E a perfomance nela inscrita, é certa. Ninguém foi pensado(a) para viver ansiosamente, e é aí que a dramaturgia atua em primeiro plano: indiscutivelmente, sentir a dor da ânsia é essa forma de os elementos atuarem em nós de maneira orgânica e quase que indissociável.

Sabe aquela pessoa tóxica com a qual você de alguma forma conviveu/convive? Ela é a ansiedade. Atua na sua vida de maneira corrosiva te fazendo o mal de alguma forma, mas você não a percebe como ruim, enxerga a si como o errado, e é isso que a contemporaneidade faz: ela joga a ansiedade, para lhe causar dúvidas sobre você mesma e para lhe fazer continuar sendo escrava do sistema.

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Reprodução

#pracegover Homem com plástico sobre toda a cabeça e peitoral em um fundo claro.

Mas, a ansiedade pela ansiedade não enche bucho, se não houver quem a direcione. Todo esse movimento imediatista, pós-moderno e closeiro é o mentor desse sentimento mudo. Não haveria ansiedades, não tão extremas, se não houvessem situações que contestassem a ela própria. 

É uma performance intensa, dependendo do grau de cada um, mas indefesa; faz você sentir-se culpado(a) por tudo e abalado(a) pelo nada. Por vários nadas. E é que entra o cute but psychoEle é o segundo ato desse grande espetáculo que é a ansiedade: é a roupa social que a gente veste para sempre mostrar-se bem, saudável e estabilizado. É esse falso equilíbrio psicológico que se exterioriza em forma de ‘beleza’. É uma psicose forjada pelo sistema para que você continue ansioso(a), mas continue servindo a ele. E se desintegrando cada vez mais de tu mesmo(a). É o grande drama do Vinte e um.

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Reprodução

#pracegover Pessoa sentada com mãos sobre um plástico vestindo o corpo, de forma que está puxando-o com os dedos.

Ser fofo, mesmo psicótico, é esse fino tecido que nos reveste e que ora confunde-se com nossa própria epiderme. É escárnio em forma de tendência. É doença assintomática. Se você não está ansioso(a) tem algo errado com você mesmo(a). Sofremos pela dor desse teatro reverso que nos coloca como meros(as) espectadores(as) do espetáculo da nossa vida. Até quando?

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