SHE: Quão velho é um novo amor?

Camilla Sales

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#pracegover Menina e homem com pés entralaçados; sapato delicado com meia fina e transparente nos pés da menina e sapato masculino, fino e robusto nos pés do homem.

Reprodução

 

Quem diria que estaríamos juntos até hoje, no sétimo dia do mês de junho? Não sei explicar ao certo e com pormenores como cada passo foi dado – isso, definitivamente, está aquém da minha compreensão de mundo, mas consigo sentir a leveza do nosso contato e a aura singela que nos envolve e quer tanto o nosso bem. E há os que perguntem “quantos anos teu namorado tem?” e há quem nem espere minha resposta e já largue o tão indelicado e broxante “e venha cá, é mais velho?”. Bom, não é que rir satiricamente ou deixar “para lá” seja a melhor decisão a se tomar, só que prefiro calar-me e pensar no quanto, independente, de um ano no RG ou, de uma diferença na conta no fim do mês (podem entrar meu pouco de mais de 500 golpinhos), não tem como suprimir o que propriamente é de verdade, sem plasticidade. 

Uma piada dita em vão, que provavelmente só um capte com maestria; uma banda estourada dos últimos anos, que os dois saberão a letra, a melodia e até a segunda voz; uma batida de popfunk, que uma é da fanbase, outro nem tanto, mas torna-se, a ponto de comprar o álbum pelo ios e fazer history no instagram encaltecendo o hino; um conhecimento de comunicação, que um manja tudo profissionalmente e a outra, se arrisca com quem não tem nada a perder. Um beijo ensinado. Uma transa animada. Um livro emprestado. Um all star dado [novinho em folha, diga-se de passagem]. Como se não fosse suficiente, sim, você é o meu número metafórica e literalmente.

Nem a terra nos basta que foi preciso correr para alto mar… numa dessas surpresas de casal, sem saber o que tinha por vir: quem sabe para curtir uma noite ao som de Caetano e Gil, ou, para cometer uma dessas episódicas cenas de enjôo já pré-imaginado quando tu disse “Tenho uma surpresa para você” e me mostrou um cais com a lancha amarrada. Pode abrir alas para o catastrófico micão tour passar, mas, em contrapartida, trazer consigo a certeza de um querer notado, quando estávamos em uma das ruas transversais da Barra, vazias, pouco iluminadas, à procura de um táxi. Tudo parecia umas dessas cenas de programinhas de humor chulo: eu, já tinha vomitado, tomado chuva, entranhado areia entre as pernas e o sal do mar na raiz dos cabelos e você me olhando com cara de desejo e cuidado e sei lá mais o quê, não conseguia traduzir. Eis que a relação vai tomando forma e querendo cada vez mais espaço: tudo isso, depois de uns dois meses já tidos rolés com amigxs, pôr-do-sol, cinema (com direito a filme ruim), saída para tomar açaí – valendo ressaltar que só uma das partes tomou – e uma nudez repentina, que se deu num terceiro encontro. “Porra, já?”. Eu me questionei, e ao mesmo tempo sabia que já ia ocorrer. E sim, foi muito bom e violentamente distinto de tudo que eu já vivi. Entendi o que era sexo.

Passaram-se meses: de encontros, ‘furos profissionais’ (já que nem tudo são roseiras), festas, e um “saudade” para lá, um “quero te ver”, às vezes até substituído pelo verbo preciso, sem nenhum caos interno e asfixia emocional, saía mermo na lata. Mas, era muita saudade mesmo! Misturada com esse querer de duas pessoas altamente viciada num sentimento de muita altitude e pouca rarefeição. Eu conheci alguns amigos teus, familiares próximos, e a si próprio. A mim também, eu era uma vítima constante de mim mesma. Tudo era novo… nada batido, obsoleto ou antiquado. Era novidade, verdade, sem igual. 

Durmo em tua casa: deito em tua cama, divido o mesmo lençol, esparramo-me em teu corpo, junto teus pés aos meus. Ah, e peço para o ventilador não ficar tão em cima de mim, afinal, somos esse agridoce de frio e calor constantes. Em tua casa, contamos causos, devastamos nossos passados, rimos do quê nem havia graça, fudemos (até cansar) – com U mesmo. Vivemos nosso momento, ali, como quem não tem dia seguinte. Mas tínhamos. E todo aquele prazer exacerbado estava dentro de uma grande mentira muito bem-contada. Diga-se de passagem: às vezes para ser boa amante há de ser boa atriz.

O tempo vai passando, a vergonha também, e o amor inflando como uma bexiga colorida e grande. Um fervor desses que no meio de uma transa vem um, baixinho, “Eu te amo!” e como se não bastasse, foi uma vez, dentre tantos colecionáveis outros momentos, em que chorei – um choro contido, quieto e praticamente velado. Ele não percebeu. “Ainda bem!”, eu pensava, né. Até que houve um pedido de namoro,  nesse exato momento, tudo junto, e muito natural. Uma hora ia acontecer, por mais espontâneo e aleatório que ousasse ser.

Ano terminando… festa, choro no carro em dia chuvoso, e a não possível virada de ano juntxs. Cada um, no teu canto, apenas em corpo. Mas, unidos num só ritmo e onipresença. Definitivamente, estávamos juntos contemplando uma dimensão só nossa. E eis que o ano recomeça, de cara nova, sentimento ainda novo também… Percebia que estávamos quase tendo vivido já todos os meses do ano e as difusas estações, por conseguinte. Um currículo que alterou nossas rotas e nos fisgou, de jeito. E aí, numa mesma sequência, chega carnaval num duo de rua com viagem com trabalho para dar conta. Saímos, curtimos – nos curtimos – recebemos cantadas gays, dançamos de pagode a eletrônica, bebemos, causamos. Daí, ele dolorido, imunidade baixa e mesmo assim firme comigo e com as minhas vontades ensandecidas. E eu, acabo ficando doente no after, na mesma pegada, como já se previa: pouca imunidade, movida e moída a remédios, a chás e textos. E por falar em texto, ele: um comunicólogo jornalista apto, cheio de know-how e uma quase comunicólogo cheia de sonhos e inseguranças.

Com este esse mar de palavras entusiasmadas de alguns meses de muito ‘se conhecer para me conhecer’, nós vivemos a nossa própria história. Obrigada por ter me ensinado o gosto do amor, e muito obrigada por existir na minha vida e saber que, se tivéssemos outra idade não seríamos tão nós e nossos. Não seríamos sequer um casal.

Que os olhares nas ruas, independente do porquê, virem anos de boas farras e risos frouxos!

 

De: Violeta

Para: Benjamin 

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